Reformador, dezembro 1948, p. 294. Temos aqui interessante caso de o mesmo poeta, Antero de Quental, transmitir dois poemas por dois médiuns diferentes, um logo após o outro, numa reunião em Pedro Leopoldo, em 31-8-48. Os editores de Reformador colocaram a seguinte observação, entre os dois poemas: “Ao terminar este soneto pela mão do médium Porto Carreiro Neto, o Espírito escreveu, pela de Francisco Cândido Xavier, o seguinte:” Lembramos que o grande poeta português desencarnou por suicídio, constituindo este o assunto de ambos os poemas.

 

 

RETORNO À VIDA

 

Ó vida que sonhei, ó vida não vivida,

Que sempre imaginei, jamais podendo tê-la...

Sonhei subir aos céus e alcançar uma estrela,

E sempre me perdi no báratro da vida...

 

A Terra quis deixar, de lutas, fementida,

Em trevas sempre envolta e na mentira bela...

Busquei fugir e em breve o frio, que enregela,

Tomou-me todo o ser, minh’alma foi tolhida...

 

O' Deus, porque sonhei? Porque voar tão alto

Pretendi, por galgar as amplidões dum salto,

Quando a lei é seguir a passo lento e lento ?

 

Devo agora voltar à Terra sem detença,

Por cumprir meu fadário e a divinal sentença,

Que impõe nosso dever cumprido cem por cento!

 

ANTHERO DO QUENTAL.

(Psicografada por Porto Carreiro Neto.)

VOZ DO TÚMULO

 

Ante o negrume do jazigo aberto,

Interroguei, chorando, ansioso, um dia:

— Onde guardas o monstro que me espia,

Gemendo à espreita do meu passo incerto?

 

Maldito sejas, leito recoberto

De miséria, de angústia e de agonia!

Onde acabas, garganta escura e fria,

Sob o pavor da morte que vem perto ?!...

 

Mas, divina e triunfal, no mesmo instante,

Uma voz respondeu do abismo hiante:

— Foge ao tremendo engano que te invade!

 

No paço estreito destas sombras mortas,

Escondo o brilho das Divinas Portas

Que abrem a glória da imortalidade!. . .

 

ANTHERO DO QUENTAL.

[Psicografada por Francisco C. Xavier.]

 

 

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